Carta para Iná

Mas uma pedra havia sido lançada. Estava grávida. Em meio a um relacionamento insalubre, estava esperando um filho ou uma filha. Quis terminar o relacionamento, mas ele insistiu. Continuamos. Eu estava desesperada por causa da gravidez. Tudo parecia que ia desmoronar.

Iyamassê é mãe de Xangô. É mãe solo assim como eu. Atiraram uma pedra nela. Ela cuidou da pedra. Da pedra cuidada nasceu Xangô. A base mitológica das afro-religiões é repleta de amor, fé e perseverança. Desta forma quero cuidar de você, Iná, minha filha. Somos só nós duas. É um pouco diferente do restante do mundo. Mas foi por uma opção. Opção, porque a vida do homem é muito fácil. A da mulher sempre é mais difícil. Quis me poupar do sofrimento causado pelo seu pai a outras mães… aos seus irmãos espalhados por aí. Não quis colocar o nome dele na sua certidão, porque sabia que seríamos só nós duas. E nós duas aqui estamos. Há um ano e dois meses, cultivo a flor da pedra que atiraram em mim.

A pedra foi lançada quando eu acabei um relacionamento duradouro. Depois daquilo eu queria experimentar novas relações. Sou professora, artista e feminista. Comecei a sair com seu pai, que era também do meio artístico. Pensei que seria um relacionamento leve e sadio. Ele era uma das figuras da cultura negra mais conhecidas na cidade. Mas era engano meu. Na verdade, era também um machista. Primeiro, eu achava que era por causa da diferença cultural, pois ele é moçambicano. O seu discurso era marcado pela culpabilização de suas ex-namoradas. Ele dizia que as “brasileiras eram complicadas”. Na verdade, ele que era o culpado. Enganou a mim e a outras mulheres. E assim ficamos por três meses ou quase isso. Não fiz as contas.

Mas uma pedra havia sido lançada. Estava grávida. Em meio a um relacionamento insalubre, estava esperando um filho ou uma filha. Quis terminar o relacionamento, mas ele insistiu. Continuamos. Eu estava desesperada por causa da gravidez. Tudo parecia que ia desmoronar. Não tinha casa, não tinha carro. Estava na metade de um mestrado acadêmico. Mas eu não queria continuar com esse relacionamento. Minha família é normativa, não gostava dele. Um dia, meu pai, o seu avô, o chamou em casa porque queria construir um puxadinho para morarmos juntos. Queria manter a família tradicional. Mas eu não aceitei. Eu o conhecia.

Por trás da imagem de bom moço para toda a cena artística e para a minha família, havia um machista. Não aceitava que eu tinha acabado o nosso relacionamento. Mandava mensagens pedindo para eu abortar. Eu tenho tudo registrado. Ele não quis ser seu pai, mas espalha que eu neguei sua paternidade. Foi até falar para minhas amigas que eu estava louca. Chegou a dizer que eu havia sequestrado o filho dele. Mas, para mim, disse que eu o tinha usado para engravidar. Descobri que ele tinha engravidado outras três mulheres no mesmo ano que eu. Abandonou-as. Foi embora. Pena que elas dependiam dele. Ele sumiu a partir do momento que decidi ser mãe solo. Ainda escuto histórias parecidas com as minhas. Ele continua enganando outras mulheres.  

Ainda restava uma pedra. Na pedra, estava guardada você. Eu tinha que te colher. Eu escolhi te chamar de Iná. É um nome de origem indígena, mas a grafia indica ligações africanas. Significa pessoa que não tem impurezas. Pura, assim como você. E não foi fácil te manter. Estávamos sozinhas. Desde a escolha do nome ao momento de parir. Durante a gravidez, eu tive hiperemese gravídica. Vomitava todos os dias. Nove vezes ao dias. Eu não aguentava mais a gravidez. Tudo o que eu queria era que chegasse a hora do parto. E quando chegou… que alívio! Mas não foi romantizado. Tudo que eu queria era que aquilo acabasse. Não senti nada diferente no parto. Tive dor. Cheguei a cagar. Mas foi a coisa mais linda ver que daquela pedra tinha nascido Iná.

Desde aquele dia somos só nós duas. Para o mundo é estranho. Perguntam pelo seu pai, porém somos só nós duas. A paternidade vai além de um nome no registro civil, ela é baseada no amor. E você está amparada nele. Não somos tradicionais, mas somos muitos os que te amam. Não poderia deixar de agradecer quem esteve ao meu lado. Seu avô e sua avó, seus tios, bisavôs e amigas de sua mãe. E como agradeço. Fui demitida de uma escola quando voltei da licença, mas fui contratada por outra. Concluí meu mestrado. Não quero que você fique à mercê. Queria que você fosse poupada de todo o sofrimento e constrangimento. Um dia você pode me questionar pelo seu pai. Eu te responderei e contarei tudo. Você tem um futuro lindo e brilhante. Como te amo, minha Iná.

Uma história para a pedra que me atiraram e que estou colhendo com muito amor.

  • Hayanna Karla Saldanha, 29 anos. Sou mulher, negra, feminista, mãe e livre.

 

  

A verdadeira carta para Iná, por sua mãe

Minha filha não tem Pai

É o que consta a certidão, não tem pai.

Ela não tem pai desde o primeiro mês da gestação.

Minha filha não tem pai, por que o pai nunca quis ser.

Inclusive, tem outros irmãos e irmãs, que também não tem pai.

Minha filha, não terá um sobrenome do pai.

Porque a mãe dela decidiu.

Decidiu e fez isso com plena certeza e aliviada.

Decidiu seu nome, seu quarto, sua saída da maternidade.

Antes, decidiu algo mais importante;

Não ficar a mercê de ninguém.

Decidiu levar a gestação só e tocar a vida como sempre soube, trabalhando,

estudando, agradecendo as pessoas que ampararam e a ajudaram e ao

universo por ter a oportunidade de ser Mãe.

A minha filha não tem pai, não sei se um dia ela vai querer ter um, ou

questionar a falta deste.

Também não sei se sentirá.

A minha filha não tem pai, pois ser homem é muito fácil e ser pai também é,

basta dizer que é.

O difícil mesmo é ser mãe, é ser mulher.

Minha filha vai ter pai e a mãe dela ensinará como a vida é.

Vai ensinar que a paternidade vai além de um mero registro, um pedaço de

papel…

Para isso é necessário primeiramente o amor.

E isso, ela tem e terá de sobra.

Minha filha não tem pai.

Ela tem família, tem tios e tias, tem avó e avô, tem até bisavós, tem primos e

primas, tem padrinho e madrinhas, tem doula, tem uma infinidade de gente

para amar.

Minha filha não tem pai, tem seu santo forte, seu anjo da guarda e um universo

de coisas maravilhosas que a aguardam.

Minha filha não tem pai

não tenham pena

Não tenham ódio, pois ela tem um futuro lindo pela frente.

Porque ela tem Mãe.

   

     Projeto Experimental
2018.2 - UFPE

 

Textos Bruno Vinícius
Vídeos Luane Ferraz e Tiago Lima
Design e diagramação por Matheus Fábio
Ilustrações por Iasmim Vieira e Fernando Valença