Sozinhas

De idades e classes sociais distintas, as histórias de cada uma delas percorrem caminhos diferentes. São lutas por reafirmação em espaços distintos, mas todas esbarram no mesmo destino: as ausências

“No início da gravidez ele falou que iria ajudar e que iríamos cuidar juntos. Depois pediu para abortar. Não aceitei, ele sumiu até hoje. Cuido do meu filho sozinha…”

“Ele foi até um pai presente enquanto éramos casados. Depois que nos separamos, ele se ausentou por completo da vida dos meus filhos. Eu, sozinha, crio, educo e sustento eles…”

“A partir do depoimento de outras mulheres, percebi que ele era um canalha. Fez filhos com várias mulheres e não cuidou de nenhum. Optei pela maternidade sozinha para não ter o desgaste que as outras tiveram…”

Sozinha na gravidez. Sozinha na hora do parto. Sozinha nas primeiras noites de choro. Sozinha nos primeiros passos. Sozinha na educação. Sozinha no registro civil. Sozinha, sola em espanhol. Sola, porque não há presença do pai. Sola, porque não existe apoio familiar. Sola, porque não há políticas de Estado. Sola, porque não há suporte do mercado de trabalho. São milhões de mulheres brasileiras que têm o desafio de criar seus filhos sozinhas. A nossa reportagem busca contar a história de 11 delas. Em primeira ou terceira pessoa, escolhemos retratar essa realidade através dos olhares de Patrícia, Brenda, Ludmilla, Virgínia, Hayanna, Paty, Marli, Érika, Sandra, e das Marianas

Estamos retratando a vida de dezenas de personagens que são recortes de milhões. Milhões de mulheres que expressam um fenômeno social no País. É o que mostra o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Um levantamento da instituição – com base nos dados do ano de 2015, mas apenas divulgado em 2017 -, afirma que a composição de famílias apenas com mães e filhos representam 26,8% dos núcleos familiares compostos por filhos. São 11,6 milhões de famílias dependendo só da presença materna. E, apesar deste número representar uma queda de 1,8% na representatividade quando se faz uma comparação de dez anos, houve um acréscimo de 1 milhão de mães solo neste período. 

Embora representem uma população significativa, elas ainda não são lembradas no calendário escolar, no trabalho e na política. Os especialistas associam esses problemas ao fato de uma cultura patriarcal ainda prevalecer no Brasil – quando, institucionalmente, os homens são valorizados em detrimento das mulheres.  Isso impede o reconhecimento paterno, a implementação de políticas públicas e do acolhimento das mães solo na sociedade. Os problemas comuns à mulher brasileira, como a falta de divisão das tarefas domésticas, a dupla jornada e a baixa ocupação em cargos de trabalho mais altos, só se intensificam na rotina delas.

Essas maternidades demandam causas e soluções para problemas diferentes, pois possuem perfis bem diversificados. Porém, o peso sempre vai recair sobre as mais pobres, como explica Ana Paula Portella, doutora em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco. “A realidade dessas mães solteiras é bem diversificada. Ela é tão diversificada quanto são as próprias mulheres. Uma coisa é você ser mãe pobre ou miserável, outra coisa é você ser mãe de classe média ou uma rica com alta escolaridade. As mulheres que ocupam uma posição de privilégio, de alta escolaridade, com bom emprego e de alta renda vão viver uma maternidade solo, da maneira que você chama, de modo mais tranquilo que uma mulher pobre. Já a mais pobre, muitas vezes, não têm acesso a redes sociais,  não tem acesso a direitos e que vive numa comunidade que não seja segura vai ter muito mais dificuldades”, comenta.

 Na realidade, o cenário de pobreza atinge a maior parte delas. Na ausência de uma criminalização do abandono paterno, o estado se faz ausente também na vida delas. Os indicadores sociais apontam isto. Um deles é a Síntese de Indicadores Sociais 2017 (SIS 2017), do mesmo IBGE. De acordo com ele, a taxa de pobreza por família é a maior entre elas, fazendo-se presente em 57% das famílias pertencentes a esta composição. Tendo como base a linha dos US$ 5,50, o indicador revela uma diminuição deste índice em outros tipos de núcleos familiares. Nas famílias de casal com filhos, o percentual cai para 30%, enquanto em núcleo de casais sem filhos atinge 12%.

A vulnerabilidade tem explicação. Essas mulheres têm menos acesso a direitos universais que outros grupos populacionais, segundo a mesma SIS 2017. A pesquisa aponta que 39,7% das mães sozinhas possuem restrição à proteção social. E o número aumenta quando elas são negras, atingindo 46,5 %. Isso significa que, apesar de toda a insegurança social, essas mulheres não têm as condições necessárias para sair da pobreza. Para se ter uma ideia de comparação, o índice atinge apenas 8,2% dos casais sem filhos. Fatores como moradia, desemprego, conciliação de tempo e falta de creches contribuem para uma estatística tão expressiva.

Marli Márcia da Silva ou Maravilha, de 57 anos, conhece bem esse cenário. Em 1991, a pernambucana decidiu transformar sua vivência enquanto mãe solteira – assim ela define -, em militância social. “O retrato da mãe solteira é negra, pobre e de periferia. Ela não tem o apoio, basicamente, de ninguém. Eu sou um exemplo. Depois que houve o abandono do pai do meu filho, nem meus amigos me ajudaram. Nem casa eu tinha para eu ser abrigada. Depois que passou a turbulência, eu decidi criar a Associação Pernambucana de Mães Solteiras (APEMAS) e ajudar as outras mulheres. Ninguém lutava pela gente. Nem mesmo a família. Desde então, já fizemos mais de 50 mil reconhecimentos paternos aqui no estado”, comenta.

Estudante de Direito e militante social, Marli enfatiza que a realidade de uma mãe solo de periferia é marcada por preconceitos, abandono e exclusão do trabalho formal. “Essas mães, muitas vezes, não têm o reconhecimento paterno e não têm com quem deixar seus filhos.

E sem ter com quem deixar, só sobra os trabalhos de venda na porta de casa, que é abrir um fiteiro, vender galeto na rua. Esta é a realidade delas”, frisa Maravilha, que mantém a instituição com mais 12 mulheres dentro da sua própria casa, no bairro de Vasco da Gama, periferia da Zona Norte do Recife.

Ana Paula Portella compartilha da mesma visão. Sem ter com quem dividir as responsabilidades da prole, as mães solo têm menos recursos emocionais, financeiros e tempo. “Se você tem filhos e tem apenas uma pessoa adulta responsável pela casa, você tem uma redução do tempo e dos recursos financeiros que afeta a família inteira. A mulher que tem um acúmulo de atividades vai ter o risco de uma sobrecarga e isso faz com que elas tenham uma maior chance de viver em situação de vulnerabilidade social”, completa a doutora.

Não há políticas para elas

Mesmo com toda esta vulnerabilidade social, não há políticas específicas para elas. A falta de creches, por exemplo, é uma das queixas do grupo social. Os números comprovam isto. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD C), um terço das crianças de 0 a 3 anos, de baixa renda, não têm acesso às instituições de educação infantil por falta de vagas. “Isso é uma problema geral entre as mulheres, mas a falta de um companheiro para dividir as tarefas se intensificam ainda mais. A falta de creches impossibilita que essas mulheres não tenham o acesso digno ao mercado de trabalho formal, porque às vezes não têm com quem deixar as crianças. Então, a creche é o ponto de partida básico para qualquer tipo de política para a mulher”, afirma a mestranda em políticas públicas e coordenadora da Secretaria da Mulher do Recife, Glauce Ponciano.

E a carência dessas creches funciona como um efeito cascata para essas mães. Sem ter onde deixar seus filhos, dedicam mais horas aos serviços domésticos. Logo, mais uma barreira para entrar no mercado de trabalho. Outro indicador social do IBGE, a PNAD C de março deste ano, mostra que as mulheres se dedicam aos cuidados com pessoas e a trabalhos relacionados à casa com 73% de horas semanais a mais que os homens – 18,1 horas contra 10,5 horas.

Os dados comprovam uma triste realidade. Não há olhares políticos específicos para elas. Na década passada, durante os governos petistas, houve um incentivo a políticas universais e, numa leva, ainda deram suporte a essas mães. Mas não foram suficientes. “Durante os governos petistas, de Lula, e com a continuação de Dilma, tivemos programas universais como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, por exemplo. Esses são programas universais, porém no Brasil ainda há um olhar de classe bastante presente quando se pensa neste tipo de implementação. Pensando de forma utópica, o ideal seria que se pensasse para cada classe oprimida, como é o caso delas”, enfatiza Alyne Nunes, historiadora e doutora em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco.

São inúmeras as possibilidades de acolher essas mulheres brasileiras. Até mesmo o básico, que é o suporte à manutenção dos seus filhos na sociedade. É o que afirma Glauce Ponciano. “A justiça poderia ser um pouco mais acolhedora para elas. A pensão, por exemplo, é um dos grandes problemas. Às vezes, o homem paga 10% do que ganha para pagar uma pensão alimentícia. É quase nada. E todo o resto das despesas sobra para a mulher arcar. Ou seja, além de criar e manter, toda a renda que ela tem se destina aos filhos, porque as pensões são irrisórias. Isto, quando são pagas”, completa.

Cidades seguras, acolhedoras. Creches para os filhos. Um mercado de trabalho compreensivo. Justiça contra o abandono paterno. Medidas simples, mas utópicas na vida dessas mães. Os próximos depoimentos revelam isto. Relacionamentos abusivos. Sumiço após separação. Jornadas triplas, quádruplas. Muitas das entrevistas, inclusive, foram feitas em intervalos de trabalhos dessas mulheres. Não há tempo para elas. Não tem quem suporte a carga física, emocional e afetiva por elas. Na ausência do pai, da família, do Estado, as mães solo enfrentam as barreiras sozinhas. E sozinhas, neste trabalho, vão contar suas histórias. Seja em texto, seja em vídeo. Em primeira ou terceira pessoa, elas vão destrinchar suas histórias, suas lutas e seus sonhos. Sozinhas.

     Projeto Experimental
2018.2 - UFPE

 

Textos Bruno Vinícius
Vídeos Luane Ferraz e Tiago Lima
Design e diagramação por Matheus Fábio
Ilustrações por Iasmim Vieira e Fernando Valença