A luta de Virgínia

O corpo de Virgínia sempre foi artístico. Aos 19 anos trabalhava com a dança. Todavia, na mesma época, precisou lidar com outro corpo dentro do seu. Seria mãe. Uma gravidez repentina que transformou sua vida.

A arte é intrínseca à Virginia Brasil, 40 anos. Ela é artista visual, arte-educadora, escritora, locutora, dubladora e preparadora de elenco. Além disso, trabalha com serigrafia e encadernação artesanal. No meio de todas estas atividades artísticas, Virginia encontrou espaço para a maternidade – por três vezes. Em duas, sozinha. A primeira foi aos 19 anos, quando o pai só reconheceu sua filha depois do exame DNA. A segunda maternidade solo aconteceu após oito anos de casamento. O ex-marido era presente na vida do filho, mas depois do divórcio virou pai de rede social: apenas há encontro nos fins de semana. E tudo vem acompanhado por fotos. São os registros para reafirmar uma paternidade inexistente. Só na terceira gravidez que a artista encontrou um pai presente para a filha. Estão casados até hoje.

O corpo de Virgínia sempre foi artístico. Aos 19 anos trabalhava com a dança. O corpo era movimento. Todavia, na mesma época, teve que lidar com outros e novos movimentos no corpo. A partir dali seria só transformação. Havia uma gravidez. Repentina, ela não esperava. Ficava com um rapaz da mesma idade, mas não era nada sério. Menos séria ainda foi a forma como ele lidou com a notícia da gravidez. Só assumiu após um exame de DNA, realizado com a inconformidade de uma tia próxima.

Virgínia sempre respirou arte. 

“Na época, eu que contei a ele. Contudo, já havia a certeza de que eu queria ter minha filha. E isso já excluía a possibilidade de um aborto. Foi uma coisa que eu decidi antes de falar para ele. E na época ele também teve uma outra filha. Havia engravidado uma menina e não estava com ela. Ficou bem assustado quando contei, mas não teve uma reação de negar o filho. E não sei como isso foi construído depois. Não sei se houve uma influência de amigos ou da família para ele ter essa decisão. Só houve aceitação com o teste, então basicamente minha filha só foi criada por mim e com o suporte de pessoas próximas”, relembra a artista.

Com o abandono do pai da filha, Virginia encontrou forças na união das mulheres. Os laços foram construídos na própria família. Em uma verdadeira rede feminina, houve a  ajuda da construção da identidade da filha enquanto mulher. Hoje, aos 21 anos, é forte igual a mãe. Entretanto, não foi fácil para a artista. Apesar de todo o apoio familiar, portas foram fechadas. Planos foram cancelados. O mercado não enxergava o espaço necessário na vida dela: “Às vezes eu comentava sobre determinada exposição ou projeto e as pessoas me falavam que até pensavam em mim, mas que eu não conseguiria dar conta por ser mãe”, relata.

Enquanto se adaptava entre as tarefas de ser mãe solo e multiartista, a vida preparava mais uma maternidade para Virginia. O corpo dela nunca se preparou para uma. Nada foi planejado. Mas, engravidou do segundo filho, o Theo. Foi cesária. Ela não sentiu o parto, mas pela primeira vez estava acompanhada. O pai, seu marido na época, era participativo. Minimamente, ele levava a paternidade a sério. Passaram oito anos casados. Houve a separação. Logo, a interrupção de laços afetivos. Desfeitos entre ela e ele. Entre ele e o filho. Como acordo, logo após a separação, ele deveria pagar a escola. No primeiro ano, sequer pagou uma mensalidade. A ausência permaneceu. Só encontra o filho nos fins de semana. Virou pai de rede social. O feed é repleto de fotos. Os poucos momentos são sempre registrados para mostrar que existe uma boa relação entre pai e filho. Atrás das curtidas, há uma paternidade inexistente.

“Theo sempre foi muito tímido. Nunca gostou de foto. Estranhei quando me deparei com o instagram do pai cheio de fotos dele. Mas não quis perguntar. Até que um dia ele me falou que as fotos eram tiradas sem a vontade dele. Não tinha o que fazer. A imagem que ele tenta passar na rede social não condiz com o pai que ele é. Consultas médicas e  participação na escola não existem na cabeça dele”, relata.

Sem planejar, o corpo de Virginia reservou mais uma maternidade. Há um ano e quatro meses, ela compartilha a criação de Pandora com o pai. Casados. Ganhou também uma enteada de 16 anos. A artista continua se desdobrando entre as artes e a maternidade tripla. Adiou planos. Atrasou a realização de sonhos. Sente-se satisfeita com o acolhimento que recebeu da família. Trouxe ao mundo três pessoas distintas, como ela mesmo define. Uma se tornou uma mulher forte. O segundo é criativo, gosta de inventar e transformar o mundo em arte, assim deve seguir os passos da mãe. A terceira já demonstra personalidade forte, apesar da idade. Todos com traços da mãe. O espelho do amor, cuidado e afeto. Mas também da luta. Virginia representa milhões de mães. Desdobra-se em mil. Sabe que esse esforço e luta diária feminina vêm de uma base machista. Porém, todos os dias ela se transforma em arte. E arte complexa. É o movimento artístico de se transformar todos os dias em múltiplas mulheres. Uma delas é ser mãe. Em dose tripla. Em duas, sozinha.

     Projeto Experimental
2018.2 - UFPE

 

Textos Bruno Vinícius
Vídeos Luane Ferraz e Tiago Lima
Design e diagramação por Matheus Fábio
Ilustrações por Iasmim Vieira e Fernando Valença