A força de Paty

Paty descobriu a primeira gravidez na Angola. Era janeiro de 2004. Eles trabalhavam e moravam no país africano. Quando houve a descoberta da gravidez, a resposta foi positiva. Com a volta para o Brasil e a separação entre eles, abriu-se uma ruptura. Não existe o mesmo pai ali. 

Ele era um bom pai, estava presente no cotidiano das crianças. Ajudava no banho, vestia a roupa e dava a comida. Levava e buscava na escola. Cuidava dos filhos até a mãe chegar do trabalho. Exercia a paternidade. Todos à sua volta o elogiavam. Ele era um bom pai. Porém, homem e paternidade são palavras que não rimam. Na vida da cirurgiã-dentista Paty Sampaio, de 44 anos, elas deixaram de rimar após a separação. O casamento dos dois estava difícil e decidiram se divorciar. Ele sumiu da vida dela e dos dois filhos. Yago e Nina, na época com sete e dois anos, respectivamente, ficaram sem resposta. Sentiram. A partir dali seria só Paty e eles.

Por trás do abandono houve uma relação. Paty descobriu a primeira gravidez na Angola. Era janeiro de 2004. Eles trabalhavam e moravam no país africano, mas naquele momento já não existia relacionamento. Quando houve a descoberta, ela não iria contar. Pensou no direito do filho, decidiu revelar. A resposta foi positiva. Ele ficou encantado com a notícia.  Decidiram reatar. Casaram. O menino nasceu no Recife. Era saudável assim como a relação dos pais. Moraram por mais três anos no país. De volta ao Brasil, o casamento estava se desgastando. Estava abalado. Mas, em 2009, tiveram Nina. Ele continuou sendo um pai presente. Dava banho, trocava fraldas. O machismo não impedia o exercício dele enquanto pai. Foi presente. Contudo, o casamento não era mais o mesmo. Após dois anos do nascimento da filha mais nova, houve a separação. Abriu uma ruptura. Logo depois, não existia mais aquele bom pai.

O desaparecimento foi acontecendo aos poucos. Morando a 10 minutos da casa das crianças, o genitor só comparecia a cada duas semanas. Chegou a falar à Patrícia que não se sentia feliz quando estava com os filhos. “Tinha dia em que os meninos ficavam com as bolsas nas costas esperando, mas ele não aparecia. Eles ficavam frustrados. E depois ele sumiu. Coincidiu com o momento em que me casei novamente. Ele disse que ia trabalhar em outra cidade, que na época era Garanhuns, para pagar a pensão dos meninos. Mas ele simplesmente sumiu e até hoje não vi essa pensão. Na verdade ele nunca pagou. Dava um dinheirinho aqui e outro ali, mas nunca o que havia sido acordado na justiça. E depois nunca conseguimos achar ele. Ele passava o endereço, mas a justiça nunca encontrava”, relata.

A ausência do pai foi como uma rasteira na família de Paty. Yago, aos oito anos, sofreu as primeiras consequências. Pelo abandono paterno, começou a desenvolver complexo de inferioridade. Ele sentia a falta do genitor, que sequer lembrou do seu aniversário naquele ano. A criança começou a tirar notas baixas na escola e demonstrar sinais de enforcamento. Foi diagnosticado com depressão infantil. A doença do filho e as sobrecargas financeira e emocional abalaram a cirurgiã-dentista, que também desenvolveu um quadro depressão profunda. Para piorar, as contas apertaram e faltava comida em casa. “Acho que o pior momento da minha vida foi durante a depressão. Não tinha motivo para sair daquela situação”, relata.

Parecia um pesadelo. Paty tinha que encarar sozinha toda a situação dos filhos. As contas apertaram. Chegou a faltar comida em casa.  Não bastasse, Nina absorveu o momento de instabilidade familiar. Queria dormir, tomou os remédios do irmão. Um momento de desespero para a mãe. Não havia quem socorresse. Foi em busca nas redes sociais. Conseguiu salvar a vida da filha numa unidade hospitalar próxima. Salvou. Nina estava bem. Porém, para abalar o ambiente que já era instável, a acusaram de envenenamento das crianças ao conselho tutelar. Ela não sabe de onde partiu a denúncia. Não sabe como surgiu. Não sabe de quem foi. Mas provou sua inocência. Tinha testemunhas. Seguiu.

“Acho que o pior momento da minha vida foi durante a depressão. Não tinha motivo para sair daquela situação. Mas acho que consegui por causa dos meus filhos. Eu sou espírita e lembro de Yago fazer passe. Eu estava na cama, ele nem sabia o que era. Mas foi um momento que me recordo. Ele se saiu bem da depressão. Hoje não toma remédios mais. A psicóloga falou que ele tinha complexo de inferioridade por causa do abandono do pai. Ele se culpava”, explica.

Houve separação do segundo casamento. O marido era bom padrasto. Cuidava de Nina como uma filha. Assim como o primeiro marido, era cuidadoso. Ele era um bom padrasto. Entretanto, tudo se repetiu. Após a separação, sumiu da vida da menina. Para Paty, o abandono é inerente ao homem. A ausência masculina é comum. Ela sentiu na pele duas vezes. Não por ela, mas pelos filhos. Depois de todo o episódio, o pai das crianças reapareceu.  Depois disso, o pai das crianças reapareceu em 2016. Estava em Salvador, na Bahia, e manteve contato com os filhos por seis meses.  Até contribuiu com uma pensão baixa, mas sumiu novamente, como na primeira vez. “Eu tenho a sensação que ele é um criminoso e as pessoas passam a mão na cabeça. Tipo, o cara não procura saber nem se as crianças tão vivas, sabe?”.

Depois de todo esse processo, Paty e os filhos conseguiram superar a ausência paterna em casa. Ela virou o alicerce da família, construindo uma nova maternidade.  Transformou abandonos em combustão para atuação política e social: especializou-se em Políticas de Gênero. Tornou-se doula e cuida de gestações de outras mulheres como se fossem suas.  Aos 44 anos, Paty Sampaio é múltipla. Mulher, mãe, feminista, dentista, especialista em gênero e doula, ainda encontrou espaço no cicloativismo. Diariamente, carrega histórias e lutas sobre as duas rodas. A rotina dela parece não caber nos ponteiros, mas há espaço para ser uma mãe. “Eu me acho uma mãe do caralho. Com todas as falhas possíveis que eu tenho, sabe?”.

     Projeto Experimental
2018.2 - UFPE

 

Textos Bruno Vinícius
Vídeos Luane Ferraz e Tiago Lima
Design e diagramação por Matheus Fábio
Ilustrações por Iasmim Vieira e Fernando Valença